segunda-feira, 29 de maio de 2017

Encontro com Milton Santos e Todos os homens do presidente


Quando lançado, em 2006, Encontro com Milton Santos… foi a sensação do Festival de Brasília, e ao longo de sua estreia pelo mundo, arrebatou diversos prêmios. O diretor Silvio Tendler, famoso por ter assinado documentários críticos sobre a sociedade brasileira (Os anos JK – Uma Trajetória Política, Jango e Utopia e Barbárie, por exemplo), realiza aqui um projeto que tinha desde 1995, quando conheceu o geógrafo Milton Santos e cogitou filmá-lo. Apenas em 2001, e cinco meses antes da morte do estudioso baiano, o diretor realizou com ele uma longa entrevista e, com base em suas ideias, realizou o filme em questão.
Se foi aplaudido de pé nos Festivais e obteve elogios de muitos pensadores, críticos e cinéfilos, o filme — como qualquer outro que fale de política — gerou indignação em alguns grupos, que o acusaram de “embelezar a miséria“, “vender opinião engessada” e de trazer uma “crítica terceiromundista viciada“. Já compararam o Tendler de Encontro com Milton Santos… com Michael Moore em uma versão Tupiniquim — e isso no pior sentido de sua conotação. Um outro grupo de espectadores tinha a esperança de que o filme teorizasse a respeito do mundo globalizado contemporâneo (lembrando que a obra é de 2006, fruto de entrevistas gravadas em 2001) ou trouxesse questionamentos de dezenas de pensadores sobre os efeitos do consumo, a fome no mundo, os novos rumos da civilização.
Não se pode deixar de assentir relutantemente para essas observações. De fato, o documentário é inerte em relação aos questionamentos incômodos, porque não acenam para uma intervenção, um princípio de resposta, por assim dizer. O filme se auto explica e para por aí. Mas é necessário colocar pensar a respeito da proposta da fita. A intenção aqui não é de fato construir um pensamento lançado a debates de “melhorias pontuais de problemas do mundo“, porque a proposta é trazer à tona as ideias do pensador entrevistado. Mesmo as participações realizadas durante o filme são materiais de arquivo, fotos, vídeos amadores, noticiários de TV e trechos de outros filmes que ajudam a explicar o pensamento sobre a sociedade que o geógrafo tanto se dispôs a entender e interpretar. Nesse sentido, o filme de Silvio Tendler entrega com bastante solidez o que promete: é uma obra na medida certa para o tipo de material que escolheu mostrar.
Partindo da importância da imagem para o homem do século XX e XXI, o documentário segue uma linha cadencial entre dados, depoimentos e exposição no estilo jornalístico, com narração de alguns atores. De um alcance bem amplo por ser constituído comercialmente, o documentário toca em pontos delicados de nosso tempo usando de linguagem acessível, que embora dotada de erudição, não se furta em explicar conceitos essenciais para que o púbico entenda melhor outros desdobramentos, como no caso da definição do que foi o Consenso de Washington, logo nos primeiros minutos do filme. Muita coisa, no entanto, fica nas mãos do espectador, para pesquisá-las posteriormente.
Se Tendler “fala o que o povo quer ouvir” (para pegar uma frase clichê aplicada ao documentário), ele o faz da melhor maneira possível. No entanto, duvido que essa estranha definição seja legítima quando se trata de um filme que aborda manifestações populares na Bolívia e no Peru, crise econômica na Argentina, manifestações ambientalistas em Davos, busca por emprego no Brasil e fatos incômodos do mundo em pleno “Globalitarismo”. É isso o que o povo quer ouvir?
Longe de sensacionalismos, manipulação de opinião e perpetuações ideológicas rasas Silvio Tendler procura transmitir as ideias de Milton Santos o mais fielmente possível. A esperança entra como o elemento humanista e essencial do pensador e da nossa sociedade na reta final. As regressões de pensamento político, ocorridas nas últimas décadas, o sucesso empreendedor da inerte geração yuppie e o triunfo da colonização econômico-comercial no mundo são expostos sobre uma visão crítica porém não niilista, nem apontando para algo como “o fim da História“. O público é convidado a ver um mundo que a mídia de massa não mostra (embora com a internet isso conheceu uma série de bons — e maus também — atalhos). Do lado de cá, o mundo globalizado passa a ter as suas primeiras cores desbotadas. Uma semente de inquietação é plantada assim que o filme termina.







Todos os Homens do Presidente é um filme estadunidense de 1976, do gênero drama, dirigido por Alan J. Pakula e com roteiro baseado no livro de mesmo nome, lançado em 1974, de Bob Woodward e Carl Bernstein.
Dois jornalistas investigam o escândalo de Watergate para o jornal Washington Post. Descobrem uma rede de espionagem e lavagem de dinheiro, o que acaba por levar à renúncia do então presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon.
Tudo, porém, começou em um patamar muito pequeno na esfera política dos Estados Unidos: uma invasão do edifício Watergate por cinco aparentes ladrões não mereceria mais do que páginas policiais, mas ganhou, com o tempo, uma proporção não imaginada. O que ocorreu de fato foi um caso amplo de espionagem política que levou o presidente republicano Richard Nixon, eleito em novembro de 1972 para seu segundo mandato, a ser forçado a sair do cargo. O filme mostra cenas históricas, permeadas às demais dirigidas por Pakula, reforçando sua intenção de bem reproduzir o que foi o caso Watergate.
Alguns meses antes da reeleição de Nixon é que ocorreu a detenção dos cinco invasores, no quartel-general eleitoral do Partido Democrata, no edifício Watergate. Eles eram ligados ao FBI e à CIA, e foram apreendidos usando câmeras e microfones. Nada disso, em princípio, interferiu na reeleição de Nixon, porém, as suspeitas de que o próprio presidente estivesse envolvido no caso aumentaram. É neste momento que vão surgir no cenário jornalístico os repórteres investigativos Robert Woodward (interpretado por Robert Redford) e Carl Bernstein (Dustin Hoffman), do Washington Post. A partir daí, todo o filme mostrará o esforço e os méritos de dois profissionais em busca da verdade factual na solução de um caso extremamente obscuro.



segunda-feira, 8 de maio de 2017

Pro dia Nascer Feliz e Gênio Indomável








O nome não deixa muito claro, mas Pro Dia Nascer Feliz é um filme sobre educação no Brasil. E, claro, num país tão socialmente contrastado e de dimensões continentais como o Brasil, tudo é questão do recorte que se faz, e de como se operam as inter-relações dos lugares e das situações específicas que se vai registrar. Nesse primeiro desafio, João Jardim se sai formidavelmente bem. A tentação de chamar a atenção para as patentes diferenças geográficas e de classe é tão grande quanto fácil, e a ideia de fazer um uso "dialético" montando e integrando lugares e problemáticas heterogêneas cairia rapidamente num denuncismo confortável e no lugar-comum. E o que Pro Dia Nascer Feliz faz? Analisa cada segmento por si mesmo, criando quatro blocos homogêneos de instalação num ambiente, filmando os lugares, tomando depoimentos de alunos e professores, enfim, criando um esforço de compreensão a partir do que se filma, com um interesse maior no que está diante da câmera do que com a tese que está embaixo do braço. Assim, vemos inicialmente as precárias condições de uma escola na cidade de Manari, em Pernambuco, depois somos transportados para uma escola em Duque de Caxias, Rio de Janeiro, em seguida vamos para Itaquaquecetuba, no interior de São Paulo, e por fim paramos numa escola de elite da cidade de São Paulo.
Vemos diferenças? Claro. Uma escola de cidade pequena enfrenta problemas que uma escola de cidade grande não enfrenta, as crianças numa cidade pobre vivem dificuldades diferentes daquelas de uma cidade rica. Mas o que o filme mostra com extrema competência é que o dinheiro não faz necessariamente uma criança mais feliz do que outra, assim como uma educação mais qualificada pode ocasionar tantas oportunidades na vida quanto criar pacientes de consultórios de psicanálise. Assim, vemos a aluna-poeta de Manari que consegue construir para si, com todas as circunstâncias contra, uma vida esclarecida, ao passo que algumas alunas de um colégio rico do Alto de Pinheiros lutam para saber o que querem da vida. Cada segmento é afrontado por seus próprios problemas. Alguns dizem respeito à falta de condições, mas todos são afetados pelo modo de vida das redondezas e pelas circunstâncias específicas dos bairros e cidades em que estão situados. Assim, a escola de Caxias vive o problema da criminalidade e a escola rica de São Paulo não consegue viver com o fato de ser um bunker de riqueza em meio à pobreza e falta de meios da maior parte do país. Cada situação é respeitada, sem tecer hierarquias ou expor ao ridículo algum dos lados. Claro, existe a tendência de espectador em empatizar com os pobres e minimizar os problemas dos ricos, considerados como fúteis (o que provoca por vezes reações monstruosas por parte da plateia), mas João Jardim consegue orquestrar seu filme a partir de uma estrutura que deixa cada segmento viver sua própria vida, respirar sua própria respiração.
Numa segunda parte, o filme intercala e integra seus segmentos a partir da questão da paternidade (o que revela pais ausentes tanto em Manari quanto no Alto de Pinheiros, ainda que a ausência se dê por razões diversas) e, em seguida, para a questão, igualmente paterna, do Estado e dos contrastes sociais (plano aéreo clichê dos arranha-céus e das favelas horizontais de Sâo Paulo), e ao mesmo tempo o filme toca na questão da violência dos jovens, que também se dá de formas heterogêneas em cada ambiente. É nesse momento que o filme evidencia uma de suas insuficiências, a de buscar pronunciadamente alguns casos de exceção, culminando em dois depoimentos de crimes de aluno, ambos em áudio sem imagem, um ilustrado pela tela preta (meninos falando que roubam por ódio ou por falta do que fazer) e outro com a chuva batendo nas poças em câmera lenta (uma menina que narra um assassinato que cometeu no colégio, de forma deliberada e orgulhosa com o feito porque a pena para menor é ínfima). Por mais que seja absolutamente necessário se referir a casos como este, as cenas – sobretudo a narração do assassinato – se revelam como algo oportunistas no filme, seja pela pieguice das soluções de imagem para fazer caber o áudio, seja porque centras questões muito mais gerais e decisivas da educação acabam sendo obnubiladas pela força desses depoimentos.
O filme também recorre à empatia com certos personagens como forma um pouco fácil de desenvolver uma relação calorosa com a plateia – não à toa, faz retornar a adorável aluna-poeta de Manari no fim do filme –, mas no geral o filme consegue mais do que fazer apenas um inventário dos maiores problemas da educação no Brasil, chegando inclusive a exercitar certos questionamentos mais teóricos e contemporâneos como a adequação dos programas escolares às necessidades da vida dos alunos e à necessidade de uma reformulação completa do papel entre professor e aluno, uma vez que a relação de respeito ao mestre construída ao longo de séculos parece não mais fazer efeito nos dias de hoje. Filme de grandes qualidades e alguns evidentes defeitos, Pro Dia Nascer Feliz funciona como o ponto de partida para um questionamento sobre educação por parte não só dos professores, mas de todos aqueles interessados na importância da transmissão de saber, e na extrema necessidade que essa transmissão tem na constituição da cidadania.






Sinopse: Em Boston, um jovem de 20 anos (Matt Damon) que já teve algumas passagens pela polícia e é servente de uma universidade, revela-se um gênio em matemática e, por determinação legal, precisa trabalhar algumas horas com um professor e fazer terapia, mas nada funciona, pois ele debocha de todos os analistas, até se identificar com um deles.
Uma mensagem tocante e que permite uma reflexão mais profunda acerca de alguns preconceitos e que com magia do cinema, o efeito pode ser mais rápido e transformador. O roteiro é poderoso, faz o expectador se conetar com ele e os personagens, que são mostrados de forma inteligente, apesar das dificuldades pessoais de cada um. O roteiro foi escrito por nada menos que a dupla Matt Damon e Ben Afleck, até então desconhecidos do grande público e que acabou por arrebatar o Oscar de 1.998, desbancando muitos roteirista de renome. Ambos também trabalham no filme, Matt no papel principal e Ben, num papel secundário, mas deixa o seu recado. Os ambientes apresentados são maravilhosos, mostrando a cidade de Boston em ângulos, contraditórios, sendo esta a idéia principal do filme, mostrar as diferenças das classes sociais, enquanto uma é formal e mais requintada (estudantes de escolas renomadas e universidade, bares mais estilosos), a outra de apresentada de modo mais informal, simples, mostrando a classe mais trabalhadora, mas tendo o seu charme também. Fotografia muito linda e precisa de Jean-Yves Scoffier, composta por cenas limpas e naturalistas. Músicas assinadas por Danny Elfman. Quanto ao elenco, é simplesmente maravilhoso: Damon até então pouco conhecido, está incrível, muito seguro (apesar do papel complicado e denso) na pele de Will, garoto órfão, com histórico de violência em suas adoções, gênio na matemática, mas com uma falta de inteligência emocional gritante. Que se torna uma bomba relógio ambulante, sempre à beira de um colapso.
Minnie Driver (Skaylar) também, muito tranquila, emotiva, com uma capacidade admirável de se adaptar, conseguindo entrar e sair dos ambientes, com sua elegância natural; muito convincente. Detalhe que não posso deixar de comentar: é a única mulher num universo puramente masculino e machista de Boston, que se sai muito bem, conquistando todos os amigos de Will. Mas quem encanta é o maravilhoso (sou muito, mas muito Fã dele) Williams (Sam Maguire), que está em mais uma performance emocionante, mostra ao mesmo tempo um brilhantismo/segurança e uma vulnerabilidade tocante. Ora mais comunicativo e ora mais introspectivo, sendo que tem o desafio de "domar" o temperamento difícil de Will. Ambos são muito inteligentes, teimosos, mas acabam por se entender e se conscientizar de que não são perfeitos. O filme aborda temas como: genialidade (inteligência/conhecimento formal), medo de mudanças, amor, compromisso, desafios, escolhas, culpa, derrota, perdas, preconceitos, responsabilidades. Que são apresentados de forma envolvente. Amei principalmente a questão da relação Psicólogo-Paciente, que neste filme foi enfocada, até como forma de quebrar velhos modelos, onde a figura do profissional é mais humana e menos dona da verdade. Mostrando que o importante é se estabelecer uma verdadeira, com amor e respeito.